sexta-feira, 9 de junho de 2017

disse

reflexos são imperfeições
atropelos de realidade duplicada
disse ela
virou o copo

reflexos são o que
evitam as queimaduras
e isso é bom
em especial
na falta de ataduras
disse ele
virou o copo

reflexos são temores
impedindo a correta apreciação das explosões
disse ela
virou o copo

reflexos são o que
permitem que se veja
e isso é bom
em especial
com tanta sombra e peleja
disse ele
virou o copo

reflexos são fantasmas
aparições rarefeitas de ausência
disse ela
virou o copo

disse ele
disse ela
virou o copo

domingo, 21 de maio de 2017

trecho #8809

os galhos, as folhas, são minhas testemunhas, eu não sou daqui, eu sou de qualquer outro lugar, não sei qual, tome minha confissão, peço que o faça, eu sinto que caminheir por séculos, eu estava perdido, eu tinha outro nome, eu dormia com lobos, eu sofria de delírios, pedaços me diziam que eu já caminheir por ruas, caminheir por mesas, por lugares onde viravam-se bebidas, onde se faziam ouvir histórias, eu não lembro meu nome, parece que já tive vários, e fico com essa sensação de que estou chegando ao lugar certo, sempre caminheir para frente, é o que vez em quando eu me ouvia dizer, de mim pra mim, só que sem dizer em voz alta, como oração, talvez, quem vai dizer, tanto tempo que fui a uma igreja, eu não saberia dizer acho que, sequer, o padre nosso, eu acho que me lembro de ir durante a infância, não estou certo, eu estive com alguém, alguém que me marcava pelo branco do olho, parecia que ali eu poderia mergulhar, era o que nos unia, girassóis deveriam enfeitar a casa que nunca tivemos e basta, mas basta de mim, como, sim, só eu posso dizer, bem, é verdade, aqui me parece um canto, eu poderia ficar por aqui, eu poderia ficar eternamente falando, só falando falando falando, eu poderia




sábado, 20 de maio de 2017

trecho #3321

e houve uma discussão
uns de um canto da sala pediam uma coisa, os de outro canto pediam outra completamente diferente,
até que se atracaram, colocaram toda a diferença à prova, impressiona-me de me lembrar, de minha memória, como a diferença pode ser assim, sabe, tão violenta, tão bruta,
dói na minha sensibilidade de anjo, de estrangeiro, de estranho,
os galhos, as folhas, são minhas testemunhas, eu não sou daqui, eu sou de qualquer outro lugar, não sei qual, tome minha confissão, peço que o faça,

trecho #2297

eu queria ser o tapete da sua sala
quando você se esfrega nua só pra se sentir viva e livre

trecho #2897

é que essa masculinitude do homem no gesto na expressão na per-for-man-ce, e no pensamento nos planos nos jeitos que isso tudo também per-for-ma-ti-za-do e performado, faz uma questão de evitar dizer sobressair uma pessoalidade, que coloque o eu no jogo, no melhor sentido do eu, sabe como?,

e terminou de beber o copo de conhaque

sexta-feira, 3 de março de 2017

da lama surge

de vez em quando eu penso assim
valoriza a ti, que o mundo não te
merece, mentira, eu nunca
penso assim, eu direto tô pensando
que eu que mereço pouco poquim
sendo que na vera é um excesso de luz
que sai de mim pro mundo e eu poderia
cegar fulanim cicraninha e etc e tal e,
assim, às vez alguém até reconhece,
e reconhecer é um joguinho dos mais
complexos, é preciso engate
é preciso encaixe
é preciso caixas matrioshkas
é preciso segredos de pé de ouvido
é preciso rasgar mapas,
a gente se deixa levar, se deixa ir,
vai parar num apê lá,
numa casa lá,
num rolê lá,
anda pela rua de um canto ao outro
em busca em busca em busca, uma quest,
há anos anos anos eu tinha outros anos
eu era outra pessoa
eu tinha em mim essa pessoa que agora
é essa voz que fala que se faz dizer que se
coloca que se firma que se desentende
consigo mesma?, eu era essa voz?
eu sei que há anos há anos há anos
eu era outrem e assim eu sentia
e parecia que outréns também
e tudo era mais promessa
e eu me pergunto
assim
é só amargor que vem?
de um tempo que já passou?
me pergunto
assim
é só?
eu digo não

sábado, 14 de janeiro de 2017

ao reverso eu

eu espirro
eu espiro
eu espiral
eu louca correndo gritando delirando no matagal
eu dizia apolo eu dizia dioniso eu dizia hera eu dizia
zeus eu dizia hécate eu dizia ceres eu dizia hades eu dizia
tudo ao reverso eu trocava letras
eu era a antessala e o amanhã em simultâneo
eu subia pelas escadas
eu saltava e flutuava eu fazia borboletas de som e glitter
eu mirava flechas nas tretas
eu voltava todas as quartas
eu preparava as tintas
eu soltava as bestas

dos mais distintos

estetoscópios, estetoscópios,
todos à mão com estetoscópios,
examinando-se uns aos outros mutuamente
meio absortos
aposento fechado
toca tame impala
é só mais uma noite qualquer
mias mias gato da esquina
com toda sua gatitude que se movimenta
e pula de um telhado a outro e às vezes cai
e eu não sou nada como o gato
eu ando eu vejo luzes eu atropelo palavras
eu vomito estrelas eu bajulo abandonos
eu invoco nomes e somas
eu convoco o movimento eu organizo
o bacanal, a convenção de trepantes
prontas prontos para encontros de dedos lambidas
genitais potências e se ali é um sussuro ali é um
morder de lábios ali é mais um
escorrer de baba de uma boca à outra
aposento fechado
toca grimes
não é só mais uma noite qualquer
nenhuma dessas noites e todas
metade de uma noite, dose de uma noite,
doze numa noite,
doze no copo,
disque doze para matar
cada pedaço fora do lugar do seu copo
colocar tudo em outras frequencias em remelexos
dos mais distintos remelexos e balançares
e revolteios e mini-convulsões
a gente esquece a gente vive a gente amaravilha um pouco
a gente esquece a gente vive coisa e tal
cruze a oitenta e cinco e segue
eu sigo eu sigo eu persigo a batida
eu desmonto a movimentação
eu faço um pouco de paz
eis aqui um pouco de paz:
alguém ouviu?
nem eu, então estatuetas
e mobiliário antigo
estão no aposento eu quase me sufoco porque
tenho rinite e coisa e tal daí eu peço
licença, por favor?, posso sair?,
aí me dizem que não e eu respiro
não, eu não, respiro,
eu espirro

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

_doris eleanor, não venha à sacada.
mas doris eleanor precisava ir à sacada.
disso dependia a vida de doris eleanor.

_veja, doris eleanor, estou presa num vórtice temporal

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

beliscotes e palalaglotes (ou: beliscotes e jazinas)

beliscotes e palalaglotes
juzinas e banavéis

jingotes e vanaínas
etrongos e manaláis

edrumbe o vanco cude
cetorque as criseidas jumas às telvalvéis

beliscotes e jazinas
frisemas e luras

degos e paleidonítivos
tilórinas e catavios

feganga a tuvana jeta
raporque os trisános eibos aos cigáveis


quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

guache gauche caught (revisited)

tô entregue aos começos, aos avessos, aos perversos
belisquetes da recepção, da ré, da decepção, do sudário e da mesquita,
rabiola encantadora, já preparo a bassoura,
ui que dose! ui que dó!


tô entregue aos reversos, aos possessos, aos desconexos
desentendimentos da cota, do diano, do diáfano, do profano,
sopranino delicete, desenlace o cacete,
ai que tudo!, ai que uó!

o maior ato falho que vc conhece e vc respeita

contrato
sem erre
é contrato

alô alô grazadeusa
sumidouro miragem
harriette sobe na mesa e levanta a saia
caleidoscópio papagaio
grita o quão essa noite é um espetáculo
quase todo o vagão da aeronave
quando todos deixam o resto pra trás

toque uma canção bem alto
feita
de silêncios

não faz a menor diferença o que está
o que pode estar
o que está acontecendo

não me digas mentirinhas, dói demais, diz a poeta,
poderei um dia saber se isso é um alexandrino ou só um desvario
alguns flashes
quaisquer flashes
todos os flashes

do pingo pro balde
da cama pro túmulo
sente lá, sente cá, riem, choram

um desafio diferente
um delírio gostoso
um acontecimento
um lance




sabe como é?



hmmm
vc sabe como é














segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

o meu pedido final
não deixa o drama morrer
não deixa o drama acabar
o burguês foi feito de drama
drama pra gente dramar

sábado, 3 de dezembro de 2016

hinote à sabedoria

a mulher que carregava o touro nos braços
subia as escadas sabendo o que fazia
tão límpida lâmina que fere uma noite qualquer
e tinta de sangue o chão de pedras
cenográficas que é tudo farsa que é tudo mito
os entrances as entranhas as entrevas de cada um
num bolo de fiados e remendos e pontas duplas

anda pelo palco apenas em diagonais
gosta de colocar enigmas às personagens
tem um embate em que coloca como as forças do caos são prevalecentes
movimenta os braços em opostos, se põe muitas vezes agachado e anda assim
recita poemas


segunda-feira, 28 de novembro de 2016

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

por um lado, por outro

bem (que) eu queria saber (se)
sou (eu) o que invento
a flor ou se ela
(já) está
(lá)

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

quaisquer noites

monóxido de carbono, oh
Ande, oh, ande. Oh, ande, oh
Ande,
Acontecimentos negros
Da melhor cor
E variadas,
E sempre, de volta, a ela:
draga, buraco negro,
percevejo, escaravelho,
E nos atormentos quaisquer noites,
fica assim, pouquim de mim, num lençol,
mas podendo ser poucão e poção