sábado, 18 de abril de 2015

depois que você morre, você tem a sua frente uma mesa de madeira escura, junto com uma cadeira também de madeira escura, acolchoada vermelho, um caderno e uma caneta preta. tem também um vigia no canto. e você tem que escrever o livro dos 500 dias antes de você morrer. e tem também um vigia, que fica a alguns passos de distância da mesa, e ele parece um eunuco árabe de séculos atrás, mas bem hollywoodiano década de 50. e à medida que você vai escrevendo ele vai te contando que depois que terminado, você passa pra outra porta e começa sua próxima atividade no mundo: trabalhar pra burro, dia e noite, com poucas horas de descanso, numa fábrica que produz energia. todo mundo faz isso. são zilhões de empregados. e você vai ficar nessa até morrer, e passar pro próximo estágio, que ninguém sabe dizer qual é. e que você esquece toda sua subjetividade ao passar pro estágio do trabalho sem fim e duradouro. e você não sabe dizer se é uma bênção ou não perder toda a subjetividade. fica no medo e na expectativa simultâneos irmanados. sempre na iminência do a seguir. não sabe até se demora-se mais na escrita, ou se acelera. à medida que escreve e rememora fica sempre no plano de fundo o pensar no próximo estágio. contaminando, dissuadindo, sussurrando.

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